A transformação por meio do diálogo

Por Joyce Baena

Quantas vezes você já teve um projeto encalhado dentro da empresa que simplesmente não anda porque as pessoas não abrem mão de suas opiniões pessoais? Quantos treinamentos você já teve que ficar sentado o dia inteiro, recebendo um monte de teorias sem aplicação no seu dia a dia, transmitidas de um jeito impositivo, diretivo e maçante? Quantas vezes você já teve que fazer algo que não acreditava, por que estava no seu escopo de trabalho?

Pense um pouco: o que essas situações têm em comum?

Decisões unilaterais, imediatismo, falta de diálogo, falta de empatia e nenhuma visão sistêmica.

Porque isso vem acontecendo com tanta frequência?

Estamos lidando com seres humanos criados no modelo da revolução industrial, doutrinados por uma educação que massacra conteúdo goela abaixo, engessa comportamentos, opiniões, exige resultados imediatos e promove prêmios em cima da individualidade.

Estamos lidando com uma sociedade que escondeu suas emoções, seus medos e angústias para demonstrar uma força que não existe. Uma sociedade que não admite erros e justamente por isso, quando eles acontecem, joga pra baixo do tapete ou aponta na direção do outro, justificando ao invés de assumir. Pessoas que ao invés de agradecer, pedem desculpas. Ao invés de elogiar, só apontam o erro.

Todas essas questões estão tão enraizadas em nossas almas que é muito, muito difícil sequer perceber. Estamos acostumados a tomar remédio para tratar sintoma, mas quase nunca paramos pra olhar a causa. E de repente, vem um menino ou menina de uma nova geração, que nasceu dialogando, compartilhando, perguntando, que não quer mais saber de obedecer sem entender. E esse menino(a) vira presidente de sei lá quantas mil pessoas e quer mudar tudo do dia pra noite.

E a ansiedade, mal dessa geração, joga todos num abismo: o que fazer? Como mudar? Como transformar comportamentos, ideias? Como mudar todas as peças de um avião enquanto ele está voando?

No desespero, muitas corporações têm buscado nos supermercados de treinamentos modelos de cursos prontos, enlatados com fórmulas mágicas que no fim das contas, não promovem transformação. Essas reclamações parecem disco riscado, tem se repetido aos montes, em praticamente todos os nossos clientes: falta engajamento, as pessoas estão desmotivadas, precisamos de protagonismo, inovação, criatividade e gente que vista a camisa.

Pessoas não são máquinas, onde você aperta um botão e o processo muda. Somos seres complexos, individuais e o que faz sentido para um, pode não fazer para o outro. Mas, se conseguirmos criar um ambiente aberto ao diálogo e dinâmicas apropriadas, o processo de transformação esperado acontece.

Como criar esse ambiente e que dinâmicas são essas?

Existem algumas premissas para que isso aconteça:

1.      É preciso acreditar no propósito do cliente. No nosso caso, como somos uma empresa que busca a horizontalização e humanização, é preciso que o propósito seja positivo para o coletivo. Não pode beneficiar somente o lado da empresa ou só do colaborador. Os dois lados tem que se conversar.

2.      Tempo para nós é fundamental para pensar e analisar o todo, para que possamos visitar os problemas que geraram a necessidade e ter de maneira palpável, o que se espera de transformação do outro no processo de comunicação.

3.      Visão sistêmica é essencial. Tudo precisa estar interligado. Por exemplo: se eu tenho um evento, eu não posso pensar somente em uma parte isolada. Temos que pensar na experiência como um todo, ou seja, desde o momento do convite para o evento até o acompanhamento posterior às ações geradas durante o evento. O próprio evento é somente um pedaço do trabalho.

4.      O trabalho de investigação precisa ser profundo. Como seres humanos, somos seres complexos, movidos por razão, emoção, sentimentos, instintos e percepções que se modificam de acordo com as diferentes situações. Nesse processo de investigação é preciso ser forte para escutar as dores. Somente tornando os problemas palpáveis é que poderemos trata-los de forma sistêmica e integrada.

Não acreditamos que existam fórmulas prontas e rápidas para resolver problemas. Assim como não existe uma só pessoa igual nesse mundo, nenhum problema é igual ao outro, nenhum dia é sequer igual ao outro. É só investigando, entendendo, provocando e descontruindo nós mesmos e o outro que é possível chegar a uma solução feita para resolver aquele problema, naquele momento, para aquelas pessoas.

* Joyce Baena e sócia-fundadora da La Gracia

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