Ser profissional ou ser humano?

Por Luciana Menezes

Logo quando entrei na faculdade consegui meu primeiro estágio em uma grande agência de publicidade. Aos poucos, fui me familiarizando com o ambiente e descobri que muita coisa era comum no dia a dia de trabalho, inclusive chorar no banheiro. Era uma equipe cheia de metas, prazos, pressão e, claro, um chefe carrasco. Ninguém falava nada sobre isso e todos tinham que engolir a angústia, que por vezes acabava dando um jeito de sair em uma cabine escondida. Ali – na agência, não na cabine - para dar conta das cobranças e conquistar um lugar que trouxesse um mínimo de segurança, precisávamos ser fortes. De certo, chorar não era lá o melhor jeito de demonstrar isso.

Anos depois, uma amiga, que também trabalhava na área, me chamou para conversar. Tinha tido um dia muito difícil no trabalho e acabou não dando tempo de chegar até o banheiro mais próximo... Chorou na frente de todo o escritório. Depois deste dia, passou a ser reconhecida como “aquela que não tem equilíbrio para lidar com as tarefas diárias” e, cansada de não ter a confiança dos colegas, acabou deixando o emprego. E ainda hoje, lidando diariamente com o universo corporativo, não raro histórias assim se repetem aqui e ali.

Por que é tão errado mostrar que temos sentimentos? Por que a partir do momento que estamos no trabalho, precisamos assumir uma postura de robôs, e não pessoas?

Essa visão é tão perpetuada que, se jogarmos no Google as palavras "emoções” e “trabalho", somos bombardeados de artigos que nos ensinam a ter controle de tudo que sentimos e constantemente tratam o ambiente corporativo como "campo de batalha". Sentimos a pressão por todos os lados e nos vemos obrigados a vestir armaduras e estarmos prontos para a guerra. Isso, aparentemente, é ser profissional. Só que antes (ou mais provavelmente, junto) do “ser profissional” existe outro, mais importante, o ser humano, e esse tem necessidades que precisam ser reconhecidas e atendidas para que possa estar no seu melhor.  Mas se elas não podem ser expostas, como isso é possível?

Em um cenário onde 72% das pessoas (Brasil) estão insatisfeitas com o trabalho1, implicando em problemas como falta de concentração e de foco, produção reduzida e distração, é preciso questionar que tipo de ambiente estamos construindo se queremos cada vez mais que as pessoas sejam autônomas e “vistam a camisa” da empresa, como ouvimos muito por aí.

Mudar não é fácil, ainda mais nesse caso, onde a mudança envolve, inclusive, questões culturais. Afinal, cabe a cada empresa decidir o que ela mais valoriza:

- o profissional frio, que não demonstra emoção, mas tampouco dá abertura para a conexão e o diálogo

OU

- o ser humano que se permite ter emoções e que se relaciona bem com as demais pessoas, engajando-as dentro de uma mesma causa

Ainda que a primeira opção possa dar resultados, tenho dúvidas que isso se sustente no longo prazo.  Entre ser profissional e ser humano, que tal encontrarmos o equilíbrio num ambiente onde as pessoas deem o máximo de si, gerem resultados, mas também se permitam sentir, conectar-se umas às outras e, principalmente, serem felizes?

1 - fonte: Pesquisa da Isma Brasil (International Stress Management Association) realizada em três capitiais (São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre) com 1.034 profissionais ativos no mercado de trabalho, no final de 2014.

* Luciana Menezes é especialista em comunicação da La Gracia, uma consultoria que acredita na empatia e na humanização da comunicação como chave para a construção de um mundo com mais sentido

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Esse é a primeira publicação feita a partir de uma parceria da La Gracia com a Robert Half que visa a criação e a disseminação de conteúdos relevantes ligados à comunicação. Gostou do tema? Aproveite para deixar seu comentário.

O nome do post foi emprestado de uma palestra da La Gracia que, assim como outras desenvolvidas por nós, tem o objetivo de levar essas discussões para onde elas de fato devem acontecer: dentro das empresas. Abaixo você assiste uma gravação de quando essa palestra foi ofertada gratuitamente como parte de uma jornada anual de encontros que acontece desde 2015 e que visa discutir temas diversos ligados à comunicação. A desse ano já está acontecendo e mais sobre ela você pode saber clicando aqui.

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