Sair do armário no trabalho: possível, mas ainda incômodo

Por Juliana Porto

Falar abertamente sobre a orientação sexual no trabalho hoje em dia é muito menos complicado do que anos atrás, um nítido avanço das empresas e da sociedade. Mas, para a maioria dos LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex), ficar fora do armário no ambiente corporativo ainda é fonte de inquietude.

Nos Estados Unidos, os avanços são mais expressivos. Divulgado em fevereiro, o Índice de Igualdade Corporativa registrou o maior aumento nas empresas de melhor classificação na história da pesquisa, com 515 empregadores obtendo resultados de 100%.

"Essas empresas sabem que a igualdade LGBTI não é apenas a coisa certa a fazer, elas se tornam mais fortes globalmente. Garantir a equidade no local de trabalho é um valor e cada vez mais uma norma política, e não apenas nos EUA" diz o presidente da entidade, Chad Grif.  Ainda segundo o levantamento, mais de 90% das empresas classificadas no indicador adotaram política de proteção de emprego de orientação sexual e identidade de gênero para suas operações mundiais e globais.

Por aqui, 75% das empresas possuem políticas que proíbem discriminação por identidade de gênero e orientação sexual, diz um estudo do Center for Talent Innovation, divulgado no ano passado. Segundo a pesquisa, 61% dos dos empregados LGBT no Brasil dizem esconder sua sexualidade para colegas e gestores.

Além disso, 49%  não a escondem, mas não falam abertamente sobre o assunto no ambiente de trabalho e adotam outro comportamento no ambiente de trabalho para se integrar entre os colegas.

Contudo, há recentes avanços. No começo de julho, pela primeira vez na história, uma mulher transexual fez uma sustentação oral perante os ministros do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte do país. A advogada Gisele Alessandra Schmidt e Silva defendeu o direito de transexuais mudarem o nome e o sexo no registro civil sem a necessidade de realizar cirurgia.

Engajamento

O consenso geral é que profissionais LGBT que trabalham para companhias que os fazem se sentir mais seguros em relação a qualquer discriminação tendem a ser mais engajados com o trabalho e a dar mais resultados. "Empresas que atuam pela valorização da diversidade encontram oportunidades de aproximação com grandes parcelas da população que tendem a aplaudir boas práticas, mesmo que isso signifique perder alguns clientes com posicionamento mais conservador e radical", diz o manual Promoção dos Direitos Humanos de Pessoas LGBT no Mundo do Trabalho, das Nações Unidas (ONU).

O documento lembra que o compromisso com a não discriminação deve ser explicitado pela empresa. Mas esse compromisso, lembra, já está dado pela legislação brasileira e pela normativa internacional de direitos humanos, que regem as condutas das organizações.     

A história por trás do apoio público à igualdade começa no esforço de cada empresa para reconhecer seus próprios funcionários LGBTI e adotar políticas, benefícios e práticas inclusivas, destaca Grif. "Com cada mudança de política e discussão de benefícios abrangentes para o transgênero, por exemplo, um empregado vê o caminho para levar seu próprio eu ao trabalho", afirmou.

* Juliana Porto é jornalista desde 2005 e começou sua carreira escrevendo justamente sobre... carreiras! De lá para cá, já cobriu finanças pessoais, consumo e tecnologia em redações no Rio e São Paulo, mas sempre acaba voltando ao tema com que começou sua vida profissional.

                        

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