O seu problema de gestão é um alfinete no calcanhar ou uma tachinha na sola de sapato?

Por Fernando Mantovani

Acredito que se um alfinete entra no calcanhar de uma pessoa, a tendência é de que ela logo interrompa tudo o que estiver fazendo para livrar-se do incômodo, a menos que o desespero, a pressa e/ou a falta de senso de prioridade sejam maiores do que sua dor. Por outro lado, se uma pequena tachinha se fixa na sola do sapato do mesmo indivíduo, ele será capaz de seguir a caminhada sem grandes problemas e com tranquilidade para avaliar a necessidade de removê-la no momento oportuno.

No mundo corporativo, essa analogia ilustra muito o que vivencio no dia a dia em relação aos diferentes posicionamentos de um gestor diante da necessidade de preenchimento de uma vaga. A situação com o alfinete demonstra a perda de um profissional-chave, pois trata-se de uma questão que precisa ser resolvida de maneira emergencial, mas o grau de importância atribuído a ela depende do senso de prioridade do responsável por gerir a área. Já a cena com a tachinha reflete o comportamento do chefe que não se sente lesado porque, possivelmente, estava com excesso de membros na equipe.

Se uma cadeira está desocupada na equipe e o gestor não tem tempo para se dedicar ao processo de seleção minha tendência é a de começar a ficar em dúvida sobre a capacidade e o comprometimento desse profissional para resolver problemas. Arrisco dizer que muitos líderes do mercado e os pares do gestor em questão compactuam desse pensamento, ainda que de maneira velada.

Diante do desligamento de um profissional, minha orientação é que os gestores encarem a questão como estratégica, seja para iniciar um processo de contratação ou para considerar que o preenchimento da vaga não faz sentido para o momento da empresa. Antes de abrir uma vaga, recomendo responder a essas três perguntas simples:

  1. Eu realmente preciso preencher essa vaga? – Reavalie o escopo de trabalho do departamento e a divisão dessas atividades entre os membros da equipe. Esse mapeamento, talvez, supreenda você com a informação de que possuía mais mão-de-obra do que realmente precisava, o que tende a comprometer os custos da empresa. O processo poderá também revelar que a necessidade de preenchimento da vaga é real e urgente porque está comprometendo a qualidade de entrega de algum colaborador que encontra-se sobrecarregado.
  2. Vou contratar! Por onde devo começar? – Independente do segmento, o time de colaboradores é o principal ativo de uma empresa. Então, o processo de contratação é prioridade. Se você simplesmente não encontra tempo para se dedicar à ação é porque, provavelmente, está com o grave hábito de priorizar o urgente em detrimento do importante. Agora, caso você seja uma pessoa organizada, mas está com dificuldade para encontrar candidatos, talvez precise de ajuda externa. Nas duas situações, liste o escopo da vaga e o perfil do profissional desejado, e, em parceria com o RH, defina remuneração e benefícios que estejam de acordo ou acima do praticado pelo mercado. Compartilhe suas intenções e dúvidas quanto a contratação, com pares e profissionais que sejam de sua confiança. Ter certeza do profissional que se procura é fundamental para evitar o turnover excessivo.
  3. Tenho as informações corretas e/ou estou bem assessorado para tomar essa decisão? – Se mesmo com planejamento você não está conseguindo preencher a vaga, imagino três possíveis problemas: você está procurando um perfil profissional que não existe no mercado; a faixa salarial oferecida está abaixo da praticada pelo segmento; ou quem está te assessorando talvez não esteja preparado para encontrar esse candidato. É de responsabilidade do RH e das empresas de recrutamento prestarem um trabalho de assessoria aos gestores, entendendo o escopo da vaga e a realidade do departamento, dos negócios, da empresa e do mercado, para sugerir o profissional e modelo de contratação mais adequados.

Para finalizar, gostaria de compartilhar duas reflexões sobre o tema contratações:

  1. Pouca proatividade do gestor para resolver questões relacionadas à contratação, desenvolvimento e retenção de profissionais tende a manchar sua imagem diante de membros da companhia e do mercado. Além disso, em caso de processos seletivos “truncados”, a tendência é de que a confiança do candidato seja minada, antes mesmo de seu ingresso na empresa.
  2. Adiar uma contratação ou a decisão de que ela não precisa acontecer, não significa economia para a empresa. Ainda que você não esteja assinando o cheque do salário do colaborador ausente, tenha certeza de que parte do recurso está sendo gasto de alguma forma, seja por meio de horas extras, de retrabalho ou de perda de qualidade diante da sobrecarga da equipe.

Lembre-se: se um alfinete entrou no seu calcanhar trate de se livrar dele o quanto antes. Não deixe que o mundo corporativo passe a enxergar você como um gestor que prefere se apoiar no primeiro banco a enfrentar desafio de resolver a questão que lhe incomoda e seguir a caminhada em prol da saúde da companhia.

* Fernando Mantovani é diretor geral da Robert Half

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