Mulheres executivas: Adriana Silva conta sua história como CEO da Balluff Brasil

Mulheres executivas: Adriana Silva conta sua história como CEO da Balluff Brasil

Apenas 5% das posições de liderança no Brasil são ocupadas por mulheres, de acordo com um estudo da Robert Half. O dado pode parecer desanimador para mulheres que buscam um lugar de destaque nas grandes companhias do País, mas não se elas se espelharem em exemplos inspiradores como o de Adriana Silva, CEO da Balluff Brasil desde janeiro de 2014. Há mais de 20 anos, a engenheira elétrica acumula ainda no currículo experiência como gerente de marketing e vendas e diretora geral, sempre atuando em empresas alemãs.

Integrante do Grupo de Mulheres Executivas nas Câmaras Alemã e Americana, a CEO se diz movida por desafios e acredita que sucesso é a combinação da competência com a sorte de estar no lugar certo, no momento exato e bem preparado para a oportunidade. Por tudo isso, ela nunca deixa de investir em seu desenvolvimento. Atualmente, frequenta as aulas do curso de Formação de Conselheiras na Saint Paul, que vem para se juntar aos diplomas de pós e MBA em marketing e de MBA em Gestão Global de Negócios.

Adriana entende que as empresas devem criar um ambiente de compreensão para que as mulheres possam desenvolver a carreira profissional, sem deixar de lado o sonho da maternidade. Para ela, a necessidade de ter que fazer essa opção é uma das grandes barreiras para que as profissionais se encorajem a alçar postos mais altos nas companhias. Com uma gestão aberta e próxima de todos funcionários, a executiva conta um pouco mais sobre seus pensamentos com relação à desigualdade de gêneros nesta entrevista exclusiva ao Blog da Robert Half.

Qual é sua visão sobre a situação da mulher no mercado de trabalho?

Hoje, infelizmente, por uma questão de escolha, as mulheres não dão continuidade à carreira. É muito fácil vê-las em cargo de gerência, mas não de diretoria. Uma parte disso se dá por escolha pessoal de priorizar o cuidado com os filhos. Por outro lado, o universo corporativo ainda é muito masculinizado e tem um olhar de preconceito sobre a mulher que deseja ter filhos. Hoje, no Brasil, nos conselhos administrativos, a participação feminina não chega a 10% e boa parte dessas participantes são membros da família. Minha percepção é de que as mulheres se preparam, mas ainda lidam com um ambiente pouco favorável.

Você foi a primeira mulher a ocupar o cargo de CEO na Balluf Brasil. Como foi a recepção?

A Balluff tem mais de 35 anos aqui no Brasil. Esse é um segmento muito masculinizado, então, no começo, as pessoas ficaram um pouco assustadas de ter uma mulher no comando. Minha percepção é de que eles ficavam se perguntando se eu daria conta. Mas, fui muito bem recebida, sem nenhuma diferenciação. As mulheres ficaram felizes com a minha chegada. Quando abrimos vagas, elas são para ambos os sexos, mas minha percepção é de que existem mais mulheres preparadas para cargos de liderança nas áreas de humanas do que nas comerciais. O grande desafio é ter as posições e as mulheres preparadas para elas. Quanto mais mulheres preparadas tivermos no mercado maiores serão as chances de elas chegarem a posições de destaque.

Quais são os principais desafios da mulher que deseja se desenvolver profissionalmente?

O primeiro ponto é a escolha entre priorizar a maternidade ou a carreira, principalmente quando não encontram empresas que promovam um ambiente para que ela concilie as duas questões. E não é só isso, existem empresas que, por preconceito, realmente questionam a capacidade e competência da mulher. Outra questão que a mulher precisa melhorar muito é com relação ao networking. Os homens estabelecem contatos com muito mais liberdade. Nós ficamos muito mais receosas com relação a isso. A mulher tem que acreditar que ela é capaz e reconhecer quando está realmente preparada.

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Já passou por algum desconforto pelo fato de ser mulher? Como reagiu?

Já. No meu caso, por dois pontos: sou mulher e, felizmente e infelizmente, aparento ter idade inferior aos meus 44 anos. Eu estava em um almoço com executivos de diversas empresas. Iniciei a conversa com um dos CEOs presentes e ele perguntou se eu cuidava da área de RH ou de marketing da Balluff. Quando eu respondi que era CEO da empresa ele ficou visivelmente sem graça. Tentou se desculpar com expressões, como “Legal! Bacana! Mas é que você é tão jovem!”. Ele disse que, inclusive, apoiava as mulheres no mercado de trabalho. Eu respondi: “Apoia, mas ainda não se sente confortável”. Muitas executivas devem passar pela mesma situação com frequência.

De que maneira os homens e as empresas podem contribuir no processo de igualdade de gêneros no mercado de trabalho?

É preciso que os homens não enxerguem as mulheres como inimigas. Acredito que as empresas têm muito a ganhar com a assertividade e o foco que é mais natural nos homens e com o ingrediente mais suave que a mulher traz ao ambiente, sem deixar a objetividade de lado e enxergando as situações além do papel. Aliás, é importante avaliar os profissionais por suas habilidades e qualificações e não com base no gênero, até mesmo porque este é um termo que se tornou muito mais amplo, além de homem e mulher. Empresas com visão aberta devem começar a entender também, por exemplo, que é aceitável que os homens se ausentem para levar o filho ao médico, assim tiramos a responsabilidade da criação dos filhos das costas da mulher.

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Qual sua visão do mercado há 10 anos e daqui a 10 anos?

Há 10 anos, era quase impossível ter mulheres em cargos de gestão e alta liderança. Para os próximos 10 anos, acredito que esse cenário será cada vez mais possível. Primeiro, porque as empresas estão mudando, a própria ONU tem trabalhado muito nesse sentido e a questão já virou um tema de discussão. Por outro lado, as mulheres estão entendendo que é possível conciliar maternidade e carreira. Acredito que o que falta para nós mulheres é nos posicionarmos na intenção de assumir o que queremos.

Qual é o seu conselho para mulheres que buscam ascensão na carreira?

Independentemente da área de atuação, corra atrás de seu desenvolvimento pessoal e profissional. Estude, busque novas fontes de conhecimento e converse com pessoas. Não tenha medo de compartilhar sua carreira com a vida pessoal. Equilibrar todas as funções não é tarefa fácil, mas existem formas de administrar. E, muito importante, se você deseja ser mãe, procure por uma empresa que te permita viabilizar o sonho da maternidade para que ele não se apresente como um empecilho para o desenvolvimento de sua carreira.

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