Assuma a responsabilidade

*Ranisson Silva

Todo mundo conhece pelo menos uma pessoa descontente com seu cargo, empresa, salário, reconhecimento, entre tantas outras coisas. Afinal, é inerente ao ser humano viver nesta constante busca por mais e pelo melhor. Recentemente, conversei com um profissional, já bastante sênior, que se sentia extremamente desvalorizado na empresa em que trabalha. Nos seus 10 anos de companhia, foi promovido apenas uma vez e, ultimamente, não conseguia oportunidades de se desenvolver. Além disso, não achava que era visto como um alguém importante. Quando perguntei a ele porque se sentia assim, as respostas foram, em geral, algo como “meu chefe não me dá uma chance” ou “minha empresa não tem um plano de carreira claro”.

Segundo ele, como a empresa era muito grande, ficava restrito apenas à atividade específica que tinha e onde já está há cinco anos. Não contive a curiosidade e perguntei quantas vezes ao longo dos últimos cinco anos ele tinha demonstrado ao seu chefe interesse em fazer mais pela empresa. Muito franco, disse que em apenas uma ocasião tinha conversado de maneira breve a respeito de novas oportunidades e uma eventual promoção, porque não gostava de ficar “cavando promoção”. Insistentemente, indaguei novamente sobre quantas vezes ele tinha pedido a oportunidade de entregar mais (dar mais). Não necessariamente pedir para ser promovido (receber mais), mas, sim, para ter mais responsabilidades. Mais uma vez, honestamente, respondeu que nunca havia abordado o assunto daquela forma com seu gestor.

Como este profissional, muitos outros passam por situações parecidas todos os dias. Carreiras que poderiam ser brilhantes, acabam sendo prejudicadas por outros dois comportamentos: 1) atribuir a responsabilidade do resultado aos outros (pessoas, empresas, circunstancias, etc.) e 2) pensar em como se pode receber mais e não pensar em como entregar mais. A atenção dada ao desejo de mais para si (ter mais, poder mais, receber mais) é sempre tão grande que quando algo não sai como o esperado, atribuir a responsabilidade aos outros é quase que automática. Afinal, o que se quer é o melhor: o melhor cargo possível, o melhor carro possível, o melhor plano de carreira possível, o melhor salário possível, etc. Nada mais natural. Mas será que estão sendo os melhores profissionais que podem ser? Será que estão entregando o melhor de si? Infelizmente, frequentemente a resposta para estas perguntas é “não”.

A diferença fundamental entre profissionais de destaque e profissionais que não alcançam suas aspirações está nesta resposta. Quando a resposta é “não” é mais comum encontrar pessoas descontentes, por vezes, frustradas com sua condição profissional, embora seja possível encontrar alguns casos de moderado sucesso. Mas quando a resposta é “sim” o céu é o limite! Pessoas que assumem a responsabilidade, que procuram fazer mais e que, de fato, se dedicam para fazer o melhor que podem em cada pequena tarefa no seu dia a dia acabam, naturalmente, alcançando coisas que, às vezes, nem mesmo elas previam. Quando algo sai diferente do esperado por elas, ao invés de caçar culpados, procuram recursos para atingir o que buscam, não perdem tempo se lamentando ou com autocomiseração. Consequentemente, se tornam mais fortes, mais versáteis e aptas a fazer mais pelos outros (empresas, família, comunidade). Enquanto vão realizando, o desejo “de mais” as impele para frente e naturalmente as recompensas vão aparecendo: uma promoção, um salário maior, um carro melhor. Para elas, ninguém lhes deve nada. A responsabilidade pelo que vão receber ou não é absolutamente delas. Depende delas ser um gestor mais capaz, um profissional mais eficiente, um colega de trabalho mais colaborativo e amistoso.

E são essas atitudes que as levam pelo caminho sem volta do sucesso. Seja ele profissional ou mesmo pessoal. Assim, quando alguém me pede um conselho para se diferenciar, seja em entrevistas de emprego ou mesmo na sua atual empresa, minha recomendação é sempre “assuma a responsabilidade. Entregue mais e você vai receber mais”. Num momento delicado de mercado como o atual, acredito que este conselho possa realmente fazer a diferença para muita gente. Porque como diz a célebre frase “em épocas de crise tem gente que chora e tem gente que vende lenço”. Em qual papel se colocar depende exclusivamente de cada um.

*Ranisson Silva é consultor de recrutamento da Robert Half

Tags: Carreira

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